Manga, Ídolo do Botafogo e Goleiro Histórico, Morre aos 87 Anos
- Editorial O Bahia Post

- 8 de abr. de 2025
- 5 min de leitura
Ex-jogador faleceu no Rio após lutar contra câncer de próstata.

Rio de Janeiro, 08/04/2025 – Haílton Corrêa de Arruda, mais conhecido como Manga, um dos maiores goleiros da história do futebol brasileiro, faleceu na manhã desta terça-feira aos 87 anos no Hospital Rio Barra, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.
O ex-jogador, ídolo eterno do Botafogo e com passagens marcantes por Internacional, Nacional do Uruguai e seleção brasileira, enfrentava um câncer de próstata há anos, uma batalha que se intensificou nos últimos meses. A morte foi confirmada pelo Botafogo em comunicado oficial, que expressou “enorme pesar” pela perda de um dos seus maiores símbolos.
Manga nasceu em 26 de abril de 1937, no Recife, e sua data de nascimento tornou-se símbolo do Dia do Goleiro no Brasil, uma homenagem à sua trajetória singular.
Revelado pelo Sport, onde conquistou o tricampeonato pernambucano entre 1955 e 1958, ele ganhou projeção nacional ao chegar ao Botafogo em 1959. Durante quase uma década no clube carioca, até 1968, disputou 442 jogos e levantou 20 títulos, tornando-se o atleta mais vitorioso da história alvinegra.
Entre as conquistas estão os bicampeonatos cariocas de 1961/62 e 1967/68 e três edições do Torneio Rio-São Paulo, em 1962, 1964 e 1966.
A passagem pelo Botafogo consolidou Manga como uma figura lendária. Conhecido por sua agilidade e por jogar sem luvas, uma raridade na época, ele exibia dedos tortos que se tornaram marca registrada, resultado de uma infância dura e de anos agarrando bolas com as mãos nuas.
Sua personalidade forte também o destacou: histórias de discussões com adversários e até com o técnico João Saldanha, com quem teria ameaçado trocar tiros, reforçam o folclore em torno de seu nome. Ainda assim, seu talento embaixo das traves era inquestionável, com defesas que entraram para a antologia do futebol brasileiro.
Após deixar o Botafogo, Manga brilhou no Nacional do Uruguai, onde conquistou quatro campeonatos uruguaios, a Libertadores de 1971 e o Mundial Interclubes no mesmo ano, feito que o coloca entre os poucos brasileiros a vencerem o torneio por um clube estrangeiro.
No Internacional, entre 1974 e 1976, foi peça-chave nos títulos brasileiros de 1975 e 1976, além de três campeonatos gaúchos consecutivos. Sua passagem pelo Colorado é lembrada por defesas memoráveis, como as do jogo contra o Cruzeiro em 1975, que garantiu o primeiro título nacional do clube.
Manga também vestiu a camisa da seleção brasileira entre 1965 e 1967, sendo titular na Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra. A campanha, porém, foi decepcionante, com eliminações na primeira fase e críticas ao desempenho da equipe, incluindo o goleiro.
Apesar disso, sua presença ao lado de lendas como Garrincha, Nilton Santos e Gérson marcou época. Fora dos grandes centros, ele defendeu clubes como Grêmio, Coritiba e Operário-MS, onde alcançou o terceiro lugar no Brasileirão de 1977, a melhor posição de um time sul-mato-grossense na competição.
Os últimos anos de vida de Manga foram desafiadores. Desde 2020, sua saúde deteriorou-se devido ao câncer de próstata, que exigiu cirurgias no Uruguai, incluindo a retirada de parte do intestino.
Em 2024, já fragilizado, ele e sua esposa, Cecilia, mudaram-se do Retiro dos Artistas para um apartamento em Jacarepaguá alugado pelo presidente do Botafogo, Durcesio Mello, um gesto de apoio ao ídolo em seus dias finais.
Em dezembro do mesmo ano, o clube levou a taça da Libertadores, conquistada após 53 anos, até a casa de Manga, que beijou o troféu em um momento emocionante registrado em vídeo.
A notícia de sua morte gerou comoção no futebol brasileiro e sul-americano. O Botafogo publicou em suas redes sociais: “É com enorme pesar que comunicamos o falecimento de Haílton Corrêa de Arruda, nosso inesquecível ex-goleiro e ídolo Manga, aos 88 anos, no Hospital Rio Barra”.
O Internacional também lamentou a perda, destacando os títulos e a “história imortal” do goleiro no clube. O Fluminense, rival histórico, prestou solidariedade aos familiares e à torcida alvinegra, reconhecendo Manga como “um dos grandes da posição”.
No X, a reação foi imediata. Torcedores escreveram mensagens como “Manga foi um monstro no gol, descanse em paz” e “o futebol perde um dos seus maiores personagens”. Alguns lembraram seu temperamento explosivo, enquanto outros exaltaram suas defesas, como as que marcaram o título brasileiro de 1975 pelo Inter.
A data de seu falecimento, próxima ao Dia do Goleiro, reforça o simbolismo de sua partida, vista por muitos como o encerramento de uma era no esporte.
A carreira de Manga é um reflexo do futebol de seu tempo, quando os goleiros eram figuras quase mitológicas, sem as proteções modernas, mas com uma coragem que compensava as limitações técnicas.
Ele jogava com o corpo, os instintos e uma determinação que o levou a enfrentar adversidades dentro e fora de campo. No Botafogo, rivalizou com o Santos de Pelé pelo título informal de melhor time do Brasil nas décadas de 1960 e 1970, enquanto no Nacional integrou um elenco que desafiou gigantes europeus no Mundial de Clubes.
O legado de Manga transcende os troféus. Sua recusa em usar luvas, apesar dos dedos tortos, era um statement de autenticidade em uma posição que começava a se modernizar. No Internacional, suas atuações em jogos decisivos, como os contra Palmeiras e Cruzeiro em 1975, foram cruciais para o bicampeonato nacional.
No Operário, ele levou um clube pequeno ao pódio do Brasileirão, um feito improvável que ainda ressoa no futebol sul-mato-grossense. Até no Grêmio, onde atuou brevemente, deixou sua marca em clássicos Gre-Nais.
A morte de Manga ocorre em um momento de renovação no futebol brasileiro, com o Botafogo celebrando a Libertadores e o Internacional buscando retomar protagonismo.
Sua ausência física contrasta com a presença duradoura que terá nas memórias dos torcedores. Clubes como Sport, onde começou, e Coritiba, onde também jogou, emitiram notas de pesar, destacando sua contribuição ao esporte em diferentes regiões do país.
A luta contra o câncer de próstata foi longa e silenciosa. Nos últimos meses, Manga esteve internado várias vezes, com complicações que debilitaram seu estado geral.
Amigos próximos, como o jornalista Marcelo Gomes, da ESPN, e o ator Stepan Nercessian, foram fundamentais em garantir que ele tivesse suporte nos anos finais, uma demonstração de carinho que amenizou o sofrimento de um ídolo que, por vezes, enfrentou dificuldades financeiras após a aposentadoria.
O velório está marcado para esta quarta-feira, no estádio Nilton Santos, casa do Botafogo, onde torcedores poderão se despedir.
O sepultamento ocorrerá no Cemitério de São João Batista, no Rio, em uma cerimônia reservada à família. A expectativa é de que milhares de alvinegros compareçam para homenagear o goleiro que, com mãos tortas, escreveu uma história reta e brilhante no futebol.
Enquanto o Brasil chora a perda, Manga entra para a eternidade como um dos maiores guardiões de sua geração.
























